Conscientização mundial sobre a doença destaca importância dos cuidados desde os primeiros anos de vida
O dia 21 de setembro é reconhecido internacionalmente como o Dia Mundial de Conscientização da Doença de Alzheimer, criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1994. No Brasil, a data também é lembrada nacionalmente desde 2008, com o objetivo de difundir informações sobre prevenção, diagnóstico e cuidados com os pacientes.
Atualmente, 55 milhões de pessoas no mundo vivem com demência, sendo que a Doença de Alzheimer é responsável por mais da metade dos casos. No Brasil, estima-se que 1,2 milhão de pessoas tenham a condição, mas grande parte ainda não recebeu diagnóstico.
Segundo a Associação Internacional da Doença de Alzheimer, um novo caso é registrado a cada três segundos no mundo, impactando não apenas o paciente, mas também familiares e cuidadores.
Fatores de risco: modificáveis e não modificáveis
A demência, e em especial o Alzheimer, está associada ao envelhecimento, mas a ciência mostra que a prevenção deve começar muito antes da velhice.
Os especialistas destacam dois tipos de fatores:
- Não modificáveis: idade e genética, que não podem ser alterados.
- Modificáveis: hábitos e condições de saúde que podem ser controlados ou evitados ao longo da vida.
Em 2020, a revista científica Lancet reuniu uma comissão internacional liderada pela pesquisadora britânica Gill Livingston. O grupo identificou 12 fatores de risco modificáveis, responsáveis por até 40% dos casos de demência.
Prevenção começa na infância: baixa escolaridade é um dos principais riscos

Um dos fatores mais importantes identificados é a baixa escolaridade durante a infância. Crianças com acesso limitado à educação formal apresentam menor estímulo cognitivo, o que reduz a chamada reserva cognitiva — a capacidade do cérebro de se adaptar e compensar lesões neurológicas.
Além disso, a baixa escolaridade costuma estar associada a condições socioeconômicas desfavoráveis, dificultando o acesso à saúde de qualidade e a uma alimentação adequada, fatores que também influenciam o desenvolvimento cerebral.
No Brasil, a baixa escolaridade aparece como o fator de maior peso, representando 7,7% do risco total de desenvolvimento de demência, segundo estudo liderado pelas professoras Claudia Suemoto (USP) e Cleusa Ferri (Unifesp).
O impacto da prevenção no Brasil: risco pode ser reduzido em até 48%
Enquanto no mundo a redução estimada do risco chega a 40%, no Brasil esse índice é ainda mais alto: 48%. O dado reforça a necessidade de políticas públicas voltadas para educação básica, controle da hipertensão arterial e diagnóstico precoce da perda auditiva, outro fator relevante.
A perda auditiva não tratada, comum na vida adulta, representa 5,6% do risco total no país, sendo considerada uma das principais portas de entrada para o declínio cognitivo.
Hábitos ao longo da vida que fazem diferença
Embora parte das ações preventivas dependa do poder público, especialistas reforçam que hábitos individuais também são determinantes. Entre eles estão:
- Manter uma rotina de atividade física;
- Controlar a pressão arterial e o diabetes;
- Tratar problemas auditivos precocemente;
- Evitar isolamento social com participação em atividades em grupo;
- Reduzir o consumo de álcool e abandonar o tabagismo;
- Buscar acompanhamento médico regular.
Essas medidas, adotadas desde cedo, podem fazer diferença significativa no envelhecimento e na qualidade de vida.
Pesquisas globais reforçam a importância da prevenção
Um dos principais estudos sobre prevenção da demência é o Finger Project, iniciado na Finlândia pela pesquisadora Miia Kivipelto. O trabalho acompanhou 1.600 idosos com fatores de risco para a doença.
Os participantes que receberam orientações supervisionadas, incluindo exercícios físicos, acompanhamento nutricional e treino cognitivo, apresentaram 25% de melhora no desempenho cognitivo após dois anos.
O sucesso do estudo levou à criação da rede internacional World Wide Fingers, presente em mais de 40 países, incluindo o Brasil, que participa por meio da USP e da UFMG.
Um futuro com mais autonomia e qualidade de vida
Cuidar da saúde desde a infância pode determinar o grau de autonomia na velhice. Em pacientes com demência, atividades simples como cozinhar, dirigir ou administrar finanças tornam-se inviáveis.
Portanto, agir sobre os fatores de risco modificáveis é uma forma concreta de promover uma velhice mais saudável, independente e com melhor qualidade de vida, reduzindo não apenas o impacto individual, mas também o peso social e econômico da doença.
